
O apagão, infelizmente, não é só no setor elétrico. Décadas de ausência de políticas públicas de planejamento urbano, habitação popular e meio ambiente são as principais causas das recorrentes enchentes que, todo ano, sofre a Baixada Fluminense. Neste momento, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e outros municípios da Baixada têm diversas áreas com desabamentos, milhares de pessoas desabrigadas, em cima dos tetos de suas casas ilhadas e, até agora, com três mortos.
Não dá mais para ouvir setores da imprensa e governos culparem o clima e a população que mora à beira de rios como agentes de suas tragédias. É sabido que a Baixada Fluminense, como o próprio nome diz, é uma região que tem boa parte de suas terras abaixo do nível do mar e recebe as águas que escoam da Região Serrana, além de, naturalmente, as margens de seus rios sofrerem constantes inundações.
Não dá mais para ver governos e sociedade tratarem os desabrigados de forma precária em escolas ou galpões, com cestas básicas, roupas usadas e, assim que o noticiário conseguir a próxima desgraça que atraia seus vorazes consumidores, estas pessoas montarão novos barracos em áreas tão degradadas ou pior que a anterior.
As políticas de pavimentação eleitoreira (capeamento asfáltico) de ruas e avenidas também contribuem para a diminuição do escoamento das águas, enchentes, desabamentos e elevação das temperaturas médias. Além de necessitar de um constante e custoso reparo pela sua rápida degradação. A falta de planejamento urbano dificulta o diagnóstico do déficit habitacional na região. É insignificante, à luz da necessidade, a aplicação de recursos municipais, estadual e federal com programas de habitação popular e sustentável. Soma-se a isso a falta de uma política integrada da região - e dentro dos próprios municípios - de cuidado com a restauração e preservação das matas ciliares nas margens dos principais rios da Baixada. A preservação do meio ambiente não somente diminuiria - e muito! - as conseqüências das chuvas, mas reduziria os investimentos em programas de despoluição e geraria maior qualidade de vida para a população do entorno.
É preciso que governos e a população tenham verdadeiro arrependimento: não dá mais para construirmos cidades que ceifam vidas, destroem a natureza, tratam a cultura com migalhas do orçamento, cada vez mais pioram seus serviços de saúde, educação, transporte e segurança pública. E mascaram esta realidade com asfalto, tintas, obras de praças e retoques milionários nos centros urbanos, enquanto que passamos indiferentes pelos meninos e meninas nos sinais, que clamam por vida - e vida com dignidade, justiça e paz.
Fabio Pereira é professor de geografia - http://fabiopereira.wordpress.com/
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