
Creio que ainda não seja possível comentar e ou opinar sobre a qualidade da obra de Fábio Barreto, já que não nos encontramos entre os agraciados – autoridades públicas, ou grandes empresários patrocinadores - com o convite para a exibição do filme no festival de cinema de Brasília na quinta-feira passada.
Evidentemente uma obra cinematográfica sobre a vida de um líder político como Lula-afinal ele é o cara - em tese se justifica e é perfeitamente defensável sob o ponto de vista artístico strito senso. Cabe questionar no entanto, qual o papel cumprido pelas grandes empreiteiras, o novo consórcio frigorífico, os bancos, para não falar nos doadores ocultos no fortalecimento do cinema em especial nas produções nacionais. Há de fato uma mudança na política cultural destes importantes setores econômicos. Há de fato uma mudança de olhar e a busca por contribuir para diminuir o déficit entre os lucros obtidos e a responsabilidade social.
É inevitável a pergunta: ser presidente em exercício e ter a biografia nas telas em um ano eleitoral influencia ou não a captação de recursos junto a empresas que tem interesses diretos e indiretos em jogo?
Tal situação poderá prejudicar a obra, se de fato não estivermos tratando somente de uma peça publicitária. A dificuldade de respostas satisfatórias e defensáveis talvez seja um sinal negativo e nos leve a uma preocupante conclusão.
Creio que as críticas e preocupações éticas e políticas, que vêm sendo externadas nos mais diversos meios de comunicação, devem servir pelo menos para recolocar em pauta os critérios de financiamento e incentivos a produção cultural no Brasil.
Hoje, os que não produzem cinema pensando nos presidentes em exercício, são praticamente reféns dos interesses dos departamentos de propaganda das grandes empresas. Não há critérios públicos bem definidos para estimular à produção nacional. Houve uma época no país, que um presidente considerado o “pai dos pobres”, criou um departamento de propaganda oficial que produziu uma vasta obra de adulação a si mesmo. O então presidente Getúlio Vargas inspirado na máquina de propaganda alemã instituiu aqui, a propaganda oficial travestida de documentários, notícias, músicas, etc. Sem exageros, ou comparações histéricas esta referência nos serve de alerta. Quando o público e o privado se misturam o resultado em geral, não fortalece os interesses republicanos e democráticos.
Temos de refletir e à luz de referências éticas e democráticas, tão enfraquecidas e secundarizadas em nossos dias, promover um debate entre o papel institucional da presidência da república, o status de Lula como líder político e os interesses eleitorais de 2010.
A liberdade de expressão e de criação é um direito fundamental e deve mais que nunca, ser defendido e referendado. Mas para que de fato possa ser plenamente exercido, é necessário democratizar a possibilidade de financiamento e produção cinematográfica no Brasil. O papel dos investimentos públicos é fundamental, estando estes vinculados ao controle dos gastos e relevância dos projetos.
A lógica privatista inspirada no novo liberalismo presente na pauta político-cultural brasileira nas últimas décadas fortalece o conceito de que “quem exerce o poder, tudo pode”.
Talvez em meio à polêmica do “Filho do Brasil” possamos avançar em uma política cultural que contribua efetivamente para o crescimento de nossos filhos.
Jefferson Moura - Sociólogo - Presidente estadual do PSOL
* artigo publicado no caderno B de domingo 22/11/2009, no Jornal do Brasil








