
Em recente pesquisa Google encontrei o hino do município de Niterói navegando pela internet. A letra de Nilo Neves teve sua poesia transformada em melodia por Almanir Grego e diz o seguinte:
“Vila Real da Praia Grande,
Sempre altaneira, operosa.
Vila Real da Praia Grande,
Terra feliz, dadivosa.
"Cidade Sorriso, encantada",
"Niterói, Niterói, como és formosa"
Por amor ao Brasil, unido, imenso,
Aprendeste a lição do "índio herói",
Começando a escrever, em São Lourenço,
Tua história, querida Niterói...
Evocando, orgulhosos, teu passado
De bravura, de trabalho e de nobreza,
Nós louvamos que Deus nos tenha dado
A paisagem de luz da natureza...”
Este hino que exalta as belezas naturais de nossa cidade, perde a cada dia mais o seu valor. Este valor, cabe ressaltar, não vem sendo perdido pelos questionamentos acerca do verdadeiro heroísmo do índio Araribóia, acusado por alguns historiadores de trair os seus em prol dos colonizadores europeus. Creio que o problema também não está no fato do hino se referir à cidade como a “Vila Real da Praia Grande”, termo que deveria servir para designar a cidade nos seus primórdios. O problema, também não está no fato do Hino Municipal de Niterói ser antigo, não se trata da negação do passado, algo tão corriqueiro na (pós) modernidade.
É fato que os tempos são outros e os mais novos não tratam mais Niterói como sendo a “Cidade Sorriso”. Preferimos por algum tempo crermos na falácia de que éramos a quarta cidade em qualidade de vida do Brasil. Recordo-me da minha adolescência de férias na Região dos Lagos do Estado do Rio de Janeiro, onde “tirávamos onda” com moradores de outros municípios do estado do Rio, brasileiros de outros estados da federação e até mesmo discutíamos com os cariocas da gema que nos provocavam afirmando que “o mais belo de Niterói, era a vista privilegiada que possuíamos do Rio de Janeiro.”
Enfim, após alguns anos a situação mudou bastante. Com o aumento das contradições entre as classes sociais decorrentes da falta de políticas públicas da prefeitura municipal, dos governo estadual e federal, ficou evidente que não éramos a quarta cidade em qualidade de vida do país. E também, “A paisagem de luz da natureza...” foi desconfigurada de tal forma que a luz da natureza está sendo cada vez mais bloqueada pelos altos prédios que crescem em diversas áreas da cidade.
Casas que comportavam apenas uma família “cedem” seu terreno para a construção de prédios que comportam dezenas de famílias. A garagem que comportava um, às vezes dois antomóveis, foi dividada em três andares, pois cada apartamento dos novos prédios tem direito a mais de uma vaga. E quando todos saem de suas casas diariamente em seus carros, a estreiteza das ruas não comporta a quantidade de automóveis, criando engarramentos que invejam grandes metrópoles do mundo. Chuvas fortes precisam de pouco tempo para causarem grandes estragos, inundando ruas e tornando o trânsito ainda mais caótico.
Diante da nova configuração da cidade, marcada pela construção desenfreada de novos imóveis, inclusive em áreas de preservação ambiental, criando desta maneira estranhamento em diversos habitantes da cidade, que se veem cada vez menos identificados com bairros e ruas da cidade deformadas pela gana da indústria imobiliária, que pensei em adotarmos um novo hino para a cidade de Niterói. Como afirmei anteriormente, o problema do hino municipal niteroiense não está no fato de sua antiguidade e sim no fato de que quem o escuta, ou lê sua letra, de fato, terá dificuldade de visualizar em exercício mental as paisagens e belezas naturais (des)escritas por Nilo Neves.
Proponho que o “novo” hino da cidade de Niterói, seja uma composição de 1951 do genial Adoniran Barbosa, denominada Saudosa Maloca. Creio que ela se encaixa melhor a nossa situação.
“Si u sinhô num tá lembradu
Dá licença di contá,
Que aqui onde agora está
Esse adifício arto
Era uma casa véia,
Um palacête assobradado.
Foi aqui seu moçu
Que Eu, Mato Grosso e o Joca
Construimus nossa maloca.
Mais um dia
Nóis nem podi si alembrá
Veio os homes com as ferramentas
O dono mandô derruba.
Peguemo todas nossas coisas
E fumus pro meio da rua
Apreciá a demolição.
Qui tristeza qui nóis sentia
Cada táuba que caía
Duía no coração.
Mato grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homes está coa razão
Nois arranjá outro lugá.
Só se conformemos
quando o Joca falou:
Deus dá o frio
conforme o cobertô
E hoje nois pega a páia
nas gramas du jardim
E pra isquecê
nois cantemos assim:
Saudosa Maloca
Maloca quirida
Dim dim dondi nós passemos
Dias filiz de nossa vida.
Saudosa Maloca
Maloca querida
Dim dim donde nós passemos
Dias filiz da nossa vida.”
Bruno Moreira Pinto é sociólogo e militante do núcleo Santa Rosa do PSOL.
Na verdade, Almanir Greco e Nilo Neves fizeram um hino à cidade, mas a cidade não tem um hino oficial. O mais usado nas comemorações é o Hino do Centenário da Criação da Vila Real da Praia Grande, de Felício Toledo e Senna Campos, de 1919!
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